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terça-feira, 2 de agosto de 2016

Alexandr Dugin - "O Estado nacional (grande ou pequeno) não é solução":



Cinco perguntas para Alexandr Dugin 
(Entrevista concedida ao site Democracy and Class Struggle):

1. Recentes ataques contra você, especialmente os de Glenn Beck nos Estados Unidos, o caracterizam como um racista-fascista. Eu entendo que você seja um comunista conservador (comunista nacionalista) e anti-racista: o meu entendimento está correto?

Eu certamente não sou um "racista-fascista". Eu não sou um fascista (não sou de Terceira Posição). Sou um anti-racista convicto. Eu odeio o racismo como parte da ideologia liberal, eurocêntrica e imperialista. A maioria dos ocidentais, incluindo os partidários dos direitos humanos, são racistas, na medida em que são universalistas e comungam com a visão de que a civilização ocidental moderna é o única padrão.

Defendo a pluralidade de civilizações e o fim do (ocidental) padrão universal do desenvolvimento social. Oponho-me firmemente a qualquer tipo de xenofobia e nacionalismo como uma construção burguesa, artificial e essencialmente moderna.

Eu não sou comunista, nem marxista, porque me recuso a aceitar o materialismo em todas as suas formas e porque nego o progresso. Assim, é muito mais correto descrever os meus pontos de vista através da Quarta Teoria Política e do Tradicionalismo e, no nível das relações internacionais, através da Teoria do Mundo Multipolar, baseada em uma visão pluralista da arquitetura do mundo com base no princípio dos grandes espaços (Grossraum) .

Me oponho ao capitalismo como um fenômeno essencial da modernidade. Acredito fortemente que a modernidade é absolutamente incorreta e que a Sagrada Tradição é absolutamente certa. Os EUA são a manifestação de tudo o que odeio: modernidade, ocidentalização, unipolaridade, racismo, imperialismo, tecnocracia, individualismo, capitalismo. Ele é, na minha perspectiva, a sociedade do Anticristo.

Os EUA me odeiam, usam de repressão, colocam-me sob sanções (por conta das minhas ideias!), me censuram, mentem e organizam a difamação em escala mundial (Glenn Beck é apenas uma pequena parte dela): mas eu aceito tudo isso com paciência. Se você se põe contra a modernidade, é lógico que a modernidade se colocará contra você.

2. Sua Quarta Teoria Política deve muito a teoria ontológica de Martin Heidegger, na qual o Ser é a Pátria (algo que permitiu uma realocação de neofascismo depois da Segunda Guerra Mundial com base no enraizamento do ser e não no "racismo científico" dos nazistas). Tal ontologia fornece apoio ideológico ao fascismo e ao neo-nacionalismo étnico.

Não posso classificar Heidegger como um "neofascista". Ele é simplesmente o maior pensador europeu do século XX. Eu avalio e considero que ele é o fundador da Quarta Teoria Política. Ele era decididamente antiliberal e anticomunista, mas também muito crítico em relação ao nacional-socialismo. Tento mostrar que ele lançou as bases para uma filosofia política totalmente nova e estou convencido de que precisamos redescobrir Heidegger, reler seus escritos para além de qualquer forma de classificação. Ele é uma espécie de profeta metafísico.

3.O nacionalismo cívico-burguês e o modelo escocês oferecem uma melhor maneira de lidar com as contradições sociais enquanto classe do que o nacionalismo étnico, que só lida com a etnia. O nacionalismo cívico oferece um quadro em que um movimento socialista e comunista pode avançar. A Ucrânia Ocidental é um bom exemplo do auto-destrutivo nacionalismo étnico.

Penso que este problema tenha dois níveis. Em primeiro lugar, as sociedades étnico-orgânicas devem ser salvas da ditadura modernista e nacionalista de tipo ocidental. O eurasianismo é precisamente isto: um Império tradicional, sagrado, religiosos e espiritual, baseado nas sociedades étnico-orgânicas tradicionais, contra o Estado-Nação burguês e contra a globalização (que é a universalização do padrão liberal em escala mundial). Neste primeiro nível, o nacionalismo étnico pode ser considerado como parte legítima da luta de libertação contra o imperialismo (é o caso da recente luta dos galeses e escoceses, que eu apoio totalmente).

Mais do que isso: eu considero legítima a vontade dos ucranianos de reafirmarem sua identidade étnica. Mas uma coisa é a afirmação da identidade e outra é criação de novos Estado nacionais burgueses que irão necessariamente oprimir as minorias étnicas. O Estado nacional (grande ou pequeno) não é solução.

Aqui chegamos ao segundo nível: sendo a luta pela identidade histórica e étnica legítima, a mesma deve colocada no contexto correto: este contexto deve ser Sagrado e Imperial e não nacional. O Império Russo era sagrado.

Eu penso que o mito do Sacro-Império do Rei Arthur pode ser considerado como um projeto Celta para a unificação escatológica da Europa Ocidental. Essa foi a ideia de Henrique VII (que foi completamente invertida por Henrique VIII). Assim, sugiro o Império do Dragão Vermelho como uma espécie de visão Pan-Céltica do grande espaço que deve superar o contexto do micro-nacionalismo étnico. O passado tem as suas raízes na eternidade e a eternidade é sempre nova e revigorada. Neste sentido, eu considero as narrativas do Rei Arthur e do Santo Graal como ontologicamente reais.

O Império Inglês foi Talassocrático e comerciante (a Nova Cartago) e, assim, foi anti-imperial, modernista, capitalista e racista. Foi incorreto não por ser Império, mas por ser anti-imperial. Contra ele, é preciso opor-se não só na luta étnica de libertação, mas também a partir de uma alternativa continental de um Império Telurocrático. Irlandeses, galeses e o povo escocês, bem como os Brettons e povo francês, devem criar sua própria versão céltica-imperial. Para tanto, figuras como o Rei  Ambigatos de Biturges ou do Rei Arthur podem ser tomadas como símbolos.

A assim chamada Primavera Russa não é nacionalista. É imperial e consiste em um reavivamento espiritual das raízes sagradas da nossa identidade (inclusiva e não exclusiva!) eurasiática. Nós somos a Terceira Roma e este é o nosso projeto escatológico. Não se trata de nacionalismo estreito ou de um novo tipo de imperialismo, mas de uma visão pluricêntrica que recusa o império global anglo-saxão e modernista e aceita a pluralidade dos espaços imperiais. Não queremos trocar o domínio americano por um russo. Lutamos por grandes espaços independentes: Eurasianano, Europeu, Céltico, Alemão, Norte-Americano, Sul-Americano, Muçulmano, Chinês, Indiano, Africano e assim por diante.

Então, em um primeiro nível: luta anticolonial de base étnica; em um segundo, a perspectiva positiva da multipolaridade baseada no conceito de pluralidade de Impérios Sagrados (grandes espaços).

4. A teoria do conhecimento de Mao, fundada no saber através de fazer (Sobre a Prática), bem como a sua Teoria da Contradição (Sobre a Contradição) e o marxismo-leninismo-maoismo ofertam uma via melhor para o conhecimento do que o conhecimento intuitivo de Heidegger através do ser.

Mao estava certo em afirmar que o socialismo não deve ser exclusivamente proletário, mas também camponês e com base nas tradições étnicas. Estava mais perto da verdade do que versão universalista e internacionalista industrial representada pelo trotskismo. No entanto, penso que a parte sagrada do maoismo foi perdida ou subdesenvolvida. Suas ligações com o confucionismo e o taoismo eram fracas. O maoismo é muito moderno para mim. A melhor solução para a China seria  preservar o socialismo e a dominação política do partido nacional-comunista (como é hoje), mas desenvolver mais as tradições sagradas (confucionismo e taoismo).
É bastante significativo que as ideias de Heidegger estejam sendo atentamente exploradas por centenas de cientistas chineses. Penso que Quarta Teoria Política caberia à China contemporânea melhor do que qualquer outra coisa.

5. O maoismo é a derivação de maior sucesso do comunismo no século XXI. O que você acha do marxismo-leninismo-maoismo desenvolvido pelo Presidente Gonzalo no Peru, de Ganapathy na Índia e de Jose Maria Sison nas Filipinas?

Todas estas lutas foram sínteses de lutas nacionais, e de classe, e são lutas patrióticas.

De modo geral, sou relativamente favorável a tais tendências: antiimperialistas, anticapitalistas e voltadas para a justiça social. No entanto, recuso o seu materialismo, universalismo e o seu progressismo. Elas poderiam se transformar em algo mais próximo da Quarta Teoria política. A QTP é baseada no Dasein e na Tradição. A QTP recusa a hegemonia ocidental e a modernidade. Poderíamos colaborar com esquerda e com a direita, com os maoistas ou com os evolianos, mas sempre visando uma nova perspectiva.

Uma última palavra.

Eu aprecio muito os galeses, irlandeses, a luta escocesa e Bretoniana pela afirmação da identidade Céltica Profunda. Sou admirador da cultura e história celta. Considero-as como um  grande tesouro da herança indo-europeu. Assim, penso que frente celta é parte muito importante da nossa luta comum.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Alexandr Dugin - "O marxismo que podemos aceitar é o marxismo mítico-sociológico":


O marxismo é relevante nos termos da sua descrição do liberalismo, da sua identificação das contradições do capitalismo, para criticar o sistema burguês e para revelar a verdade por detrás das políticas demo-burguesas de exploração e escravização apresentadas na forma de “desenvolvimento” e “libertação”. A crítica potencial do marxismo é extremamente útil e aplicável: ela pode bem ser incluída no arsenal da Quarta Teoria Política. Neste caso, porém, o marxismo não aparece como uma ideologia que fornece respostas a um conjunto amplo de questões emergentes (respostas estas que são racionais e axiomáticas em sua fundação), mas como um mito expressivo ou como um método sociológico profícuo. O marxismo que podemos aceitar é o marxismo mítico-sociológico.
Como um mito, o marxismo narra a história de um estado paradisíaco original (o comunismo primitivo) que é gradualmente perdido (a divisão primitiva do trabalho e a estratificação da sociedade primitiva). A partir de então, as contradições aumentam, chegando ao ponto de, no fim do mundo, reencarnarem na forma paradigmaticamente mais pura do antagonismo entre Capital e Trabalho. O Capital (a burguesia e a democracia liberal) personifica o mal global, a exploração, a alienação, a mentira e a violência. O Trabalho recapitula um grande sonho e uma antiga memória do bem comum, cuja aquisição (a mais-valia), por parte de uma minoria maligna, origina todos os males da vida. O Trabalho (o proletariado) deve reconhecer os paradoxos desta situação e se erguer contra seus patrões, de modo a construir uma nova sociedade: o paraíso na terra, o comunismo. No entanto, este não será o “comunismo inicial de origens naturais”, mas um tipo artificial, científico, em que os excedentes, acumulados por séculos e milênios de alienação, servirão à comuna, à comunidade. O sonho se tornará realidade.
Um tal mito se encaixa perfeitamente na estrutura da consciência escatológica que ocupa um lugar significativo nas mitologias de todos os tipos de tribos e de povos, sem mencionar nas diversas religiões. Isto, por si só, já conta a seu favor para que nós o tenhamos na mais alta estima.
Além de tudo, como sociologia, o marxismo é absolutamente útil para revelar os mecanismos de alienação e de mistificação que o liberalismo usa para justificar seu domínio, bem como para legitimar suas sanções. Sendo ele mesmo um mito, em sua forma ativista polêmica, o marxismo serve como um excelente instrumento para expor as grandes narrativas burguesas, de modo a derrubar a credibilidade do phatos liberal. Neste sentido – Contra o Liberalismo – ele pode ser efetivamente usado sob novas condições: afinal, nós continuamos a existir sob o capitalismo e, portanto, a crítica marxista e a luta de classes contra o capitalismo permanecem na agenda (ainda que as velhas formas desta luta tenham se tornado irrelevantes).
O marxismo está normalmente correto quando descreve seu inimigo, especialmente a burguesia. No entanto, suas tentativas de compreender a si mesmo o levaram ao erro. A primeira e mais proeminente contradição é a previsão não cumprida de Marx acerca dos tipos de sociedades mais aptas para as revoluções socialistas. Ele estava confiante de que as mesmas ocorreriam nos países industrializados europeus com um elevado nível de manufatura e com um alto percentual de proletariado urbano. Tais revoluções foram excluídas de ocorrer nos países agrários e possuidores do modo asiático de produção (devido a sua falta de desenvolvimento). No século XX, tudo ocorreu exatamente ao contrário: revoluções socialistas e sociedades socialistas se desenvolveram em países agrários com uma população rural arcaica, enquanto nada semelhante se deu nas altamente desenvolvidas Europa e América. Ainda assim, mesmo naqueles países em que o socialismo venceu, a dogmática marxista não permitiu que seus pressupostos lógicos básicos fossem repensados, nem que se considerasse o papel dos fatores pré-industriais e nem que fosse avaliado corretamente o real poder do mito.
Em sua versão ocidental e soviética, a autorreflexão do marxismo acabou sendo questionável e imprecisa. Criticando o liberalismo justificadamente, o marxismo estava seriamente equivocado sobre si mesmo: o que, de certo modo, afetou o seu destino. Ele eventualmente entrou em colapso mesmo naqueles lugares em que havia triunfado – e, nos termos daqueles lugares onde deveria ter vencido, o capitalismo prevaleceu: o proletariado se dissolveu na classe média e desapareceu dentro da sociedade de consumo, contrariando as expectativas e projeções. No fim, os comunistas revolucionários europeus se converteram em palhaços pequeno-burgueses, entretendo e entediando o exausto público das democracias. 

 (Alexandr, Dugin. A Quarta Teoria Política. 2ª Ed. Austral: Curitiba, 2012).

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Friedrich Engels - A economia liberal e a dissolução da família:


«Depois de a economia liberal ter feito tudo para universalizar a hostilidade, decompondo as nacionalidades, transformando a humanidade numa horda de bestas ferozes (acaso não são bestas ferozes os que se dedicam a concorrência?) (...), após este trabalho preliminar, restava-lhe apenas um passo para chegar ao fim: dissolver a família. Para isso, o sistema fabril, sua bela invenção pessoal, correu ao seu auxílio. O último traço dos interesses comuns, a comunidade familiar de bens, foi minada pelo sistema fabril e -- pelo menos aqui, na Inglaterra -- está a ponto de ser dissolvida. Cotidianamente, as crianças, logo que estão em idade de trabalhar (ou seja: quando chegam aos nove anos), gastam o salário em usos próprios e consideram a casa paterna como uma simples pensão, entregando aos pais uma quantia para alimentação e alojamento. Como poderia ser diferente? Poderia haver outro resultado que o isolamento dos interesses que está na base da liberdade de comércio?»

 (Friedrich Engels, Esboço de uma Crítica da Economia Política).

sexta-feira, 25 de março de 2016

Alexandr Dugin - A relevância do Marxismo e do Neo-Marxismo para a Teoria do Mundo Multipolar:




Nota introdutória:
O texto que se segue foi extraído do livro Teoria do Mundo Multipolar (2012) de Alexander Dugin, traduzido para o português pelo Instituto de Altos Estudos em Geopolítica & Ciências Auxiliares (IAEG) e adaptado por nós para o idioma brasileiro. Trata-se do fragmento de um capítulo em que Dugin estabelece uma confrontação entre as principais correntes teóricas contemporâneas das Relações Internacionais (realismo, liberalismo, escola inglesa, neo-marxismo, teoria crítica, pós-modernismo, feminismo, normativismo, sociologia histórica e construtivismo) e a sua teoria da multipolaridade. Neste caso, reproduzimos o trecho onde ele aborda a especificidade da teoria marxista ou neo-marxista, tendo como principal referência teórica a obra de Immanuel Wallerstein e sua teoria do Sistema-Mundo.
A apreciação de Dugin sobre a teoria marxista parte de uma compreensão geral do marxismo e da maneira marxista de encarar a realidade: a tese de que a moderna propriedade burguesa configura-se como uma fase generalizada e normativamente universal do desenvolvimento histórico da humanidade, isto é, como uma necessidade histórica, material e espiritualmente antecedente a propriedade socialista, é tida por Dugin como uma ideia central na teorização marxista. 
A respeito disto, poder-se-ia argumentar que a teoria marxista, mesmo que em algum grau, relativizou semelhante tese, reconhecendo que a percurso etapista do processo histórico não constitui uma lei geral do desenvolvimento social, mas apenas uma de suas possibilidades. Ver, por exemplo, o prefácio à edição russa de 1882 do Manifesto Comunista (MARX; ENGLES, 2012), onde Marx comenta a possibilidade do modo de produção campesino-comunal do tipo obchtchina, até então dominante na Rússia, evoluir para uma “forma superior, comunista, de propriedade conjunta da terra” (p. 11) sem necessariamente passar pela fase capitalista: possibilidade esta que pode ser considerada marginal e teoricamente periférica em termos de ortodoxia marxista, haja visto não haver qualquer elaboração concreta, nos termos do materialismo dialético, a respeito do tema. O próprio Lênin, posteriormente, em seu Duas Tácticas da Social-Democracia na Revolução Democrática (LÊNIN, 1905), rechaçou tal possibilidade como uma "elucubração dos populistas e dos anarquistas", asseverando ser impossível para a Rússia "escapar do capitalismo ou saltar por cima dele por qualquer meio que não o da luta de classes no terreno e dentro dos limites desse mesmo capitalismo". 
De todo modo, a crítica de Dugin ao marxismo é simples: a Weltanschauung burguesa moderna não é econômica, histórica, societária ou moralmente superior a outros modos pré-modernos de organização político-social. A premissa de que o ideário burguês é um "avanço" ou um "progresso" em comparação aos modos antigos de produção está no cerne da rejeição e na crítica de Dugin e da Quarta Teoria Política ao marxismo.

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O marxismo e o neo-marxismo nas Relações Internacionais (RI) são extremamente úteis à Teoria do Mundo Multipolar (TMM) como arsenal doutrinário crítico do universalismo da civilização ocidental e da sua pretensão a superioridade moral baseada nos fatores de sua superioridade financeira, material e tecnológica. A civilização ocidental da era moderna optou pela via capitalista e, assim, limitou seus horizontes. Não obstante, a encarnação material do sucesso em um alto nível de desenvolvimento e de eficácia econômica das ações dos mercados e, mais recentemente, na prioridade dada ao desenvolvimento do setor financeiro, podem ser decisivos somente se aceitarmos o padrão capitalista, não só a nível material, mas também no nível dos valores sociais, culturais e espirituais. Foi o que demonstrou perfeitamente Max Weber, que identificou o capitalismo como a expressão da ética protestante, a partir do qual a recompensa do homem no decorrer da vida, por meio do sucesso e da riqueza, é um reflexo direto de sua dignidade moral. A equiparação da riqueza à moral, característica da sociedade ocidental da era moderna, possui raízes religiosas e culturais. O Capital e o capitalismo tornaram-se não só o critério do poder, mas também o critério da verdade.
 O marxismo desafia semelhante abordagem e, embora reconheça a influência do Capital, rejeita sua pretensa superioridade moral. A ética marxista organiza-se de modo oposto: o Bem se encontra na classe trabalhadora (proletariado) que, sob o capitalismo, encontra-se escravizada pela parasítica classe burguesa. No marxismo, rico é sinônimo de Mal. Consequentemente, o desenvolvimento material, e a concentração de Capital em determinado país, não querem dizer nada, podendo demonstrar até mesmo que um tal pais configura-se como uma das sociedades mais injustas, más, devendo, como tais, serem rejeitadas.
 Na análise das RI, tal ética marxista leva à apreciação moral do “abastado Norte” e do sistema capitalista como uma expressão histórica, geográfica e social do mal mundial. O Ocidente não só não se manifesta como um modelo a seguir, nem na Terra Prometida – na qual se encontraria a solução para todos os problemas –, como também se torna a cidadela da exploração, do engano, da falsidade, da violência e da injustiça.
 Sem concordarmos com todas as conclusões dogmáticas desta abordagem a cerca da revolução mundial e do papel messiânico do proletariado, a TMM aceita a abordagem marxista no que diz respeito a sua apreciação da natureza e da origem do Ocidente capitalista, denunciando-o como um modelo de exploração assimétrica que impõe os seus critérios civilizacionais (capitalismo, livre mercado, demanda pelo lucro, materialismo, consumismo, etc.) a todos os povos e sociedades. O capitalismo é o aspecto econômico-material do universalismo e do colonialismo ocidental. Ao aceitarmos a lógica do Capital, mais cedo ou mais tarde seremos obrigados a aceitar e a reconhecer o Ocidente e a sua civilização como guias, pontos de orientação, modelos exemplares e horizontes de desenvolvimento: o que está em completa contradição com a ideia de uma ordem mundial multipolar e da valorização da pluralidade civilizacional. Algumas civilizações podem aceitar a prosperidade material e a forma capitalista de atividade econômica como aceitáveis e desejáveis, mas outras podem ser que não. O capitalismo não é obrigatório e não é também a única forma de organização econômica. Pode ser aceito ou rejeitado. A equiparação do bem-estar material á dignidade moral pode ser justificado por uns e rejeitado por outros. Portanto, para a TMM, o vetor anticapitalista do marxismo, e do neo-marxismo nas RI, bem como a denúncia característica do modelo de desenvolvimento dependente, são componentes que podem bem aplicados. O mesmo vale par a acrítica do “abastado Norte” e ao apelo à oposição ao sistema mundial. Sem esta resistência e oposição será impossível o advento do mundo multipolar. 
A principal diferença entre a TMM e a teoria neo-marxista do sistema mundial (bem como em relação aos projetos de Negri, Hardt e de outros altermundialistas) consiste no fato da TMM não reconhecer, em absoluto, o fatalismo histórico das teorias marxistas, que insistem na premissa do capitalismo como uma fase generalizadamente obrigatória e universal do desenvolvimento histórico, a qual será seguida da fase igualmente fatal e irrevogável da revolução proletária. Para a TMM, o capitalismo é uma forma empiricamente fixa de desenvolvimento da civilização ocidental-européia, enraizada na cultura desta e difundida quase em escala planetária. Mas uma análise profunda do capitalismo nas sociedades não-ocidentais demonstra, com certa consistência, a sua natureza simuladora e superficial, dotada de propriedades semânticas muito distintas e representando sempre algo atípico e diferente da formatação socioeconômica que prevalece no Ocidente moderno. O capitalismo surgiu no Ocidente e pode tanto continuar a evoluir como perecer. Mas a sua expansão para além do mundo ocidental, embora condicionada pela tendência expansionista do Capital, não tem razão de ser nas sociedades não-ocidentais onde ele projeta-se. Cada civilização possui sua própria noção de tempo, história, economia e lógica de desenvolvimento material. O capitalismo invade as civilizações não-ocidentais como perpetuador das práticas coloniais e, como tal, pode e deve ser rejeitado, alvo de resistência, como se se tratasse de uma agressão por parte de uma cultura e de uma civilização alienígena. Assim, a TMM insiste na luta contra o “Norte rico”, que é travada atualmente em todos os pontos do mapa da humanidade e, principalmente, no “Segundo Mundo” (a semi-periferia, nas palavras de I. Wallerstein). O mundo multipolar não deve surgir depois do liberalismo (como acreditam os neo-marxistas), mas ao invés do liberalismo. Assim sendo, a luta contra o liberalismo não deve se dar em nome daquilo que irá substituí-lo depois que este se instalar em escala planetária, mas já, de modo a não permitir que ele alguma vez se estabeleça em escala mundial. Para as civilizações não-ocidentais é desnecessário passar pela fase do desenvolvimento capitalista. Tampouco é necessário mobilizar suas populações em prol da revolução proletária. As elites e as massas dos países da “semi-periferia”, a despeito dos neo-marxistas, não estão de todo obrigados a dividirem-se socialmente e a integrarem-se nas duas classes internacionais – a burguesia mundial e o proletariado mundial –, perdendo, assim, todas as suas características civilizacionais. Pelo contrário, as elites e as massas pertencentes a uma mesma civilização devem reconhecer a sua identidade comum, cujo significado deve pesar mais que o da identidade de classe. Se em relação à solidariedade internacional da burguesia e, em menor extensão, do proletariado, os marxistas possuem alguma razão (pois se tratam de Estados capitalistas e burgueses nos quais, de fato, domina a lógica do Capital), no caso das civilizações não-ocidentais as coisas não podem ser colocadas desta forma. O topo e a base no mundo islâmico, por exemplo, estão muito mais cientes da sua cultura islâmica do que seus equivalentes classistas em outras civilizações – em particular no Ocidente. E este sentimento de comunhão, de unidade, não deve ser corroído e nem abalado (seja pelo cosmopolitismo liberal, pelo neo-marxismo ou pelo anarquismo de tipo internacionalista), devendo, ao contrário, ser fortalecido, aprofundado e preservado.
O mundo multipolar, principalmente em seu estágio contra-hegemônico inicial, deve ter como base a solidariedade entre todas as civilizações na sua oposição às práticas colonialistas e globalistas do “Norte rico”. Tal luta deve unir as elites e as massas dentro das suas civilizações, pois o critério das classes (a elite como burguesia e as massas como o proletariado) é uma projeção do padrão ocidental. Nas civilizações não-ocidentais existem, de modo empírico e evidente, estratos sociais mais altos e mais baixos, mas a sua semântica sociológica e cultural difere do modelo redutor no qual o único critério decisivo é o da posse dos meios de produção. A TMM apela à solidariedade das elites e das massas na construção dos pólos do mundo multipolar e na organização dos grandes espaços, de acordo com os caracteres culturais e históricos de cada sociedade.