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terça-feira, 2 de agosto de 2016

Alexandr Dugin - "O Estado nacional (grande ou pequeno) não é solução":



Cinco perguntas para Alexandr Dugin 
(Entrevista concedida ao site Democracy and Class Struggle):

1. Recentes ataques contra você, especialmente os de Glenn Beck nos Estados Unidos, o caracterizam como um racista-fascista. Eu entendo que você seja um comunista conservador (comunista nacionalista) e anti-racista: o meu entendimento está correto?

Eu certamente não sou um "racista-fascista". Eu não sou um fascista (não sou de Terceira Posição). Sou um anti-racista convicto. Eu odeio o racismo como parte da ideologia liberal, eurocêntrica e imperialista. A maioria dos ocidentais, incluindo os partidários dos direitos humanos, são racistas, na medida em que são universalistas e comungam com a visão de que a civilização ocidental moderna é o única padrão.

Defendo a pluralidade de civilizações e o fim do (ocidental) padrão universal do desenvolvimento social. Oponho-me firmemente a qualquer tipo de xenofobia e nacionalismo como uma construção burguesa, artificial e essencialmente moderna.

Eu não sou comunista, nem marxista, porque me recuso a aceitar o materialismo em todas as suas formas e porque nego o progresso. Assim, é muito mais correto descrever os meus pontos de vista através da Quarta Teoria Política e do Tradicionalismo e, no nível das relações internacionais, através da Teoria do Mundo Multipolar, baseada em uma visão pluralista da arquitetura do mundo com base no princípio dos grandes espaços (Grossraum) .

Me oponho ao capitalismo como um fenômeno essencial da modernidade. Acredito fortemente que a modernidade é absolutamente incorreta e que a Sagrada Tradição é absolutamente certa. Os EUA são a manifestação de tudo o que odeio: modernidade, ocidentalização, unipolaridade, racismo, imperialismo, tecnocracia, individualismo, capitalismo. Ele é, na minha perspectiva, a sociedade do Anticristo.

Os EUA me odeiam, usam de repressão, colocam-me sob sanções (por conta das minhas ideias!), me censuram, mentem e organizam a difamação em escala mundial (Glenn Beck é apenas uma pequena parte dela): mas eu aceito tudo isso com paciência. Se você se põe contra a modernidade, é lógico que a modernidade se colocará contra você.

2. Sua Quarta Teoria Política deve muito a teoria ontológica de Martin Heidegger, na qual o Ser é a Pátria (algo que permitiu uma realocação de neofascismo depois da Segunda Guerra Mundial com base no enraizamento do ser e não no "racismo científico" dos nazistas). Tal ontologia fornece apoio ideológico ao fascismo e ao neo-nacionalismo étnico.

Não posso classificar Heidegger como um "neofascista". Ele é simplesmente o maior pensador europeu do século XX. Eu avalio e considero que ele é o fundador da Quarta Teoria Política. Ele era decididamente antiliberal e anticomunista, mas também muito crítico em relação ao nacional-socialismo. Tento mostrar que ele lançou as bases para uma filosofia política totalmente nova e estou convencido de que precisamos redescobrir Heidegger, reler seus escritos para além de qualquer forma de classificação. Ele é uma espécie de profeta metafísico.

3.O nacionalismo cívico-burguês e o modelo escocês oferecem uma melhor maneira de lidar com as contradições sociais enquanto classe do que o nacionalismo étnico, que só lida com a etnia. O nacionalismo cívico oferece um quadro em que um movimento socialista e comunista pode avançar. A Ucrânia Ocidental é um bom exemplo do auto-destrutivo nacionalismo étnico.

Penso que este problema tenha dois níveis. Em primeiro lugar, as sociedades étnico-orgânicas devem ser salvas da ditadura modernista e nacionalista de tipo ocidental. O eurasianismo é precisamente isto: um Império tradicional, sagrado, religiosos e espiritual, baseado nas sociedades étnico-orgânicas tradicionais, contra o Estado-Nação burguês e contra a globalização (que é a universalização do padrão liberal em escala mundial). Neste primeiro nível, o nacionalismo étnico pode ser considerado como parte legítima da luta de libertação contra o imperialismo (é o caso da recente luta dos galeses e escoceses, que eu apoio totalmente).

Mais do que isso: eu considero legítima a vontade dos ucranianos de reafirmarem sua identidade étnica. Mas uma coisa é a afirmação da identidade e outra é criação de novos Estado nacionais burgueses que irão necessariamente oprimir as minorias étnicas. O Estado nacional (grande ou pequeno) não é solução.

Aqui chegamos ao segundo nível: sendo a luta pela identidade histórica e étnica legítima, a mesma deve colocada no contexto correto: este contexto deve ser Sagrado e Imperial e não nacional. O Império Russo era sagrado.

Eu penso que o mito do Sacro-Império do Rei Arthur pode ser considerado como um projeto Celta para a unificação escatológica da Europa Ocidental. Essa foi a ideia de Henrique VII (que foi completamente invertida por Henrique VIII). Assim, sugiro o Império do Dragão Vermelho como uma espécie de visão Pan-Céltica do grande espaço que deve superar o contexto do micro-nacionalismo étnico. O passado tem as suas raízes na eternidade e a eternidade é sempre nova e revigorada. Neste sentido, eu considero as narrativas do Rei Arthur e do Santo Graal como ontologicamente reais.

O Império Inglês foi Talassocrático e comerciante (a Nova Cartago) e, assim, foi anti-imperial, modernista, capitalista e racista. Foi incorreto não por ser Império, mas por ser anti-imperial. Contra ele, é preciso opor-se não só na luta étnica de libertação, mas também a partir de uma alternativa continental de um Império Telurocrático. Irlandeses, galeses e o povo escocês, bem como os Brettons e povo francês, devem criar sua própria versão céltica-imperial. Para tanto, figuras como o Rei  Ambigatos de Biturges ou do Rei Arthur podem ser tomadas como símbolos.

A assim chamada Primavera Russa não é nacionalista. É imperial e consiste em um reavivamento espiritual das raízes sagradas da nossa identidade (inclusiva e não exclusiva!) eurasiática. Nós somos a Terceira Roma e este é o nosso projeto escatológico. Não se trata de nacionalismo estreito ou de um novo tipo de imperialismo, mas de uma visão pluricêntrica que recusa o império global anglo-saxão e modernista e aceita a pluralidade dos espaços imperiais. Não queremos trocar o domínio americano por um russo. Lutamos por grandes espaços independentes: Eurasianano, Europeu, Céltico, Alemão, Norte-Americano, Sul-Americano, Muçulmano, Chinês, Indiano, Africano e assim por diante.

Então, em um primeiro nível: luta anticolonial de base étnica; em um segundo, a perspectiva positiva da multipolaridade baseada no conceito de pluralidade de Impérios Sagrados (grandes espaços).

4. A teoria do conhecimento de Mao, fundada no saber através de fazer (Sobre a Prática), bem como a sua Teoria da Contradição (Sobre a Contradição) e o marxismo-leninismo-maoismo ofertam uma via melhor para o conhecimento do que o conhecimento intuitivo de Heidegger através do ser.

Mao estava certo em afirmar que o socialismo não deve ser exclusivamente proletário, mas também camponês e com base nas tradições étnicas. Estava mais perto da verdade do que versão universalista e internacionalista industrial representada pelo trotskismo. No entanto, penso que a parte sagrada do maoismo foi perdida ou subdesenvolvida. Suas ligações com o confucionismo e o taoismo eram fracas. O maoismo é muito moderno para mim. A melhor solução para a China seria  preservar o socialismo e a dominação política do partido nacional-comunista (como é hoje), mas desenvolver mais as tradições sagradas (confucionismo e taoismo).
É bastante significativo que as ideias de Heidegger estejam sendo atentamente exploradas por centenas de cientistas chineses. Penso que Quarta Teoria Política caberia à China contemporânea melhor do que qualquer outra coisa.

5. O maoismo é a derivação de maior sucesso do comunismo no século XXI. O que você acha do marxismo-leninismo-maoismo desenvolvido pelo Presidente Gonzalo no Peru, de Ganapathy na Índia e de Jose Maria Sison nas Filipinas?

Todas estas lutas foram sínteses de lutas nacionais, e de classe, e são lutas patrióticas.

De modo geral, sou relativamente favorável a tais tendências: antiimperialistas, anticapitalistas e voltadas para a justiça social. No entanto, recuso o seu materialismo, universalismo e o seu progressismo. Elas poderiam se transformar em algo mais próximo da Quarta Teoria política. A QTP é baseada no Dasein e na Tradição. A QTP recusa a hegemonia ocidental e a modernidade. Poderíamos colaborar com esquerda e com a direita, com os maoistas ou com os evolianos, mas sempre visando uma nova perspectiva.

Uma última palavra.

Eu aprecio muito os galeses, irlandeses, a luta escocesa e Bretoniana pela afirmação da identidade Céltica Profunda. Sou admirador da cultura e história celta. Considero-as como um  grande tesouro da herança indo-europeu. Assim, penso que frente celta é parte muito importante da nossa luta comum.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Mao Tsé-Tung - Um Estudo sobre a Educação Física:


[Extraído de uma redação publicada em abril de 1917, em Hsin Ching-Nein] 

 Nossa nação está necessitada de força. O espírito militar não é encorajado; a condição física da população se deteriora diariamente. Este é um fenômeno extremamente perturbador. Os promotores da educação física não se agarram ao essencial do problema, e, portanto, seus esforços, embora prolongados, não foram efetivos. Se este estado continuar, nossa fraqueza crescerá ainda mais. Atingir os nossos objetivos e fazer nossa influência ser sentida são assuntos externos, resultados. O desenvolvimento de nossa força física é de um assunto interno, uma causa. Se nossos corpos não forem fortes, ficaremos com medo quão logo os soldados inimigos apareçam em nossas portas. E então, como poderemos alcançar nossos objetivos e nos fazer respeitados? A força depende de treinamento e treinamento depende de autoconsciência. Os defensores da educação física não falharam em vislumbrar métodos os mais variados. Se seus esforços tivessem ainda assim permanecido estéreis, isto se daria devido a insuficiência de forças externas para moverem o coração. Se queremos fazer da educação física algo efetivo, devemos influenciar as atitudes subjetivas da população, estimulá-la e torná-la consciente à educação física. Se o indivíduo se torna consciente do problema, um programa para a educação física virá facilmente, e assim alcançaremos nossos objetivos e faremos nossa influência ser sentida naturalmente. 

1. Um esclarecimento sobre a educação física 

A educação física auxilia na preservação da vida. O oriente e o ocidente diferem em suas interpretações sobre o assunto. Chuang Tzu usava como exemplo o ato de cozinhar; Confúcio, o exemplo do arqueiro e do condutor de biga. Na Alemanha, a educação física ganhou grande popularidade. A esgrima se alastrou por todo o país. O Japão possui o bushido; e, além disto, seguindo o exemplo do nosso país, o judô desenvolveu no Japão uma posição admirável. Quando examinamos estes exemplos, observamos que tudo se inicia através dos estudos da fisiologia. 

2. O lugar da educação física em nossas vidas 

"A educação física complementa a educação da virtude e do conhecimento; afinal, ambos virtude e conhecimento residem no corpo. Sem o corpo, não haveria nem virtude e nem conhecimento. São raros aqueles que compreendem isto. Pessoas costumam focar-se ou no conhecimento, ou na moralidade. Conhecimento é certamente valioso, pois distingue o homem do animal. Mas onde o conhecimento é contido? A moralidade também é valiosa: ela é o sustentáculo da ordem social, da igualdade entre nós e os outros. Mas onde a virtude reside? O corpo contém o conhecimento e hospeda a virtude. Ele carrega a erudicação como uma carruagem e hospeda a moral como um quarto. O corpo é a carruagem da erudicação, o aposento da retidão. As crianças entram na escola primária quando alcançam a idade apropriada. No primário, uma atenção particular deveria ser dada ao desenvolvimento do corpo; o progresso intelectual e moral são de importância secundária. O cuidado e a nutrição deveriam ser primários; disciplina e o ensinamento, complementares. Atualmente, poucas pessoas sabem disto, e o resultado é que as crianças adoecem, ou até mesmo morrem cedo, por causa do estudo. No ensino fundamental e médio, a ênfase deve cair igualmente sobre os três aspectos educacionais; enquanto que, no presente, a maioria das pessoas exagera, acentua o aspecto intelectual. Durante os anos do ensino fundamental, o desenvolvimento do corpo ainda não está completo. Visto que são poucos, atualmente, os fatores favorecendo o desenvolvimento físico, e aqueles desencorajando-o são muitos, não haveria uma tendência para o desenvolvimento físico cessar? No sistema educacional do nosso país, os cursos exigidos são tão densos quanto os pelos de uma vaca. Se mesmo um adulto com um corpo resistente, forte, não poderia suportá-lo, muito menos aqueles que não tenham atingido a idade adulta, ou aqueles que são fracos. Especulando sobre as intenções dos educadores, alguém é levado a pensar se os mesmos não projetaram um currículo com a intenção de levar à exaustão os estudantes, para pisar nos corpos deles, arruinar a vida deles... Que estupidez! A única calamidade que pode suceder a um homem é a de não ter um corpo. O que mais há com o que se preocupar? Se alguém deseja aperfeiçoar o físico de outrem, outros aspectos o seguirão automaticamente. Para o aprimoramento do corpo, nada é mais efetivo do que a educação física. A educação física realmente ocupa o primeiro lugar em nossas vidas. Quando o corpo é forte, então o indivíduo pode avançar rapidamente pelo saber e a moralidade, colhendo vastos benefícios. Ela deveria ser considerada uma importante parte de nossos estudos. O aprendizado possui partes essenciais e partes suplementares; os projetos possuem os seus fins e os seus começos. Reconhecer o que vem primeiro e o que vem por último colocará o indivíduo mais próximo ao meio correto de realizá-los." (De "O Grande Aprendizado", um dos quatro clássicos confucianos). Isto é exatamente o que eu tenciono a dizer. 

3. Os abusos anteriores da educação física e o meu método para remediá-los 

As três formas de educação são igualmente importantes; os estudantes, até agora, deram muita atenção à educação moral e intelectual, negligenciando a educação física. A infeliz consequência disto é que eles curvam suas costas e abaixam suas cabeças; eles possuem "mãos magras e pálidas" (dos Dezenove Poemas Antigos, uma famosa coleção de poemas da dinastia Han); quando sobem um morro, suas respirações são ofegantes, e quando andam pela água, ficam com cãibras nos pés. É por isto que Yen Tzu teve uma vida curta e Chia morreu jovem. Quanto a Wang Po e Lu Chao-lin, o primeiro morreu cedo e o outro ficou paralítico. Todos estes eram homens the grande realizações em virtude e erudição, mas chega um dia em que o corpo não pode ser preservado e, assim, virtude e erudição são destruídas com ele. Somente os homens do norte estão aptos a "viver debaixo das armas e encontrar a morte sem lamentos" (D'A Doutrina do Meio, uma dos clássicos confucianos). Nas regiões de Yen e Chao havia muitos herois, e mártires e guerreiros frequentemente vieram de Liangchow. No início da dinastia Qing, Yen Hsi-chai e Li Kangchu praticavam ambas as artes militares e literárias. Yen Hsi-chai viajava cerca de mil li (Cerca de 0,5 quilômetros) ao norte da Grande Muralha para aprender esgrima. Ele confrontou bravos soldados e venceu. Consequentemente, ele veio a dizer: "Se alguém carece das artes literárias ou das militares, é este o verdadeiro caminho?"... Até onde nós, estudantes, sabemos, a instalação de uma escola e a instrução oferecida pelos seus professores são apenas o aspecto objetivo e externo. Nós também possuímos o interno, o aspecto subjetivo. Quando a decisão de um indivíduo é feita em seu coração, então todas as partes do corpo obedecem as ordens do seu peito. A fortuna e o azar são de nossa própria busca. "Eu gostaria de ser virtuoso, e eis a virtude em mãos." (dos Analectos de Confúcio). Quão mais isto é verdadeiro para a educação física! Se nós não temos a vontade para agir, então mesmo que o exterior e o objetivo sejam perfeitos, eles ainda não nos beneficiarão. Logo, quando falamos em educação física, deveríamos começar pela iniciativa individual. 

4. A utilidade da educação física 

Porque o homem é um animal, o movimento tem suma importância para ele. E porque ele é um animal racional, seu movimento deve ter um sentido. Mas por que é o movimento merecedor de estima? Por que é o movimento racional merecedor de estima? Dizer que o movimento colabora com o ganho da vida é trivial. Dizer que o movimento protege a nação é grandioso. Ainda assim, nem um dos dois é o motivo basilar. O objetivo do movimento é simplesmente preservar nossas vidas e alegrar nossos corações. Chu Hsi enfatizou o respeito e Lu Chiu-yuan enfatizou a tranquilidade. Tranquilidade é tranquila e respeito não é ação; é meramente tranquila. Lao Tzu disse que a imobilidade é o objetivo último; Buda buscou a quietude e métodos de contemplação. A arte de contemplação é estimada pelas disciplinas de Chu e Lu. Recentemente tivemos esses que, seguindo estes mestres, falaram sobre métodos de contemplação, alardeado sobre a efetividade dos métodos deles, e expressaram desprezo àqueles que se exercitam, assim arruinando seus corpos. Este é talvez uma das vias, mas eu não me arriscaria a segui-la. Em minha humilde opinião, somente há movimento no céu e na terra... Frequentemente escutamos que o corpo e a mente não podem ser ambos perfeitos ao mesmo tempo, que aqueles que usam suas mentes são deficientes em saúde física e aqueles com um corpo robusto são geralmente deficientes nas capacidades mentais. Este tipo de conversa é também absurda e aplica-se somente àqueles que são fracos em vontade e débeis em ação, o que geralmente não é o caso do homem superior. Confúcio morreu na idade de setenta e dois anos, e eu jamais ouvi dizer que seu corpo não era saudável. Buda viajou continuamente, pregando sua doutrina, e morreu em uma idade elevada. Jesus teve o infortúnio de morrer injustamente. Quanto a Maomé, ele subjugou o mundo ao carregar o Alcorão com a mão esquerda e uma espada com a mão direita. Todos estes homens foram chamados sábios e se encontram entre os maiores pensadores. A educação física não apenas fortifica o corpo como também eleva o conhecimento. Há um ditado: Civilize a mente e bestifique o corpo. Este é um ditado adequado. Com intuito de civilizar a mente, o indivíduo deve primeiramente bestializar o corpo. Se o corpo for bestializado, a mente civiliza virá em seguida. A erudição consiste em conhecer as coisas do mundo e discernir as suas leis. Nesta matéria, devemos confiar em nosso corpo, porque a observação direta depende de olhos e ouvidos, e a reflexão depende do cérebro. Os olhos e os ouvidos, assim como o cérebro, devem ser considerados parte do corpo. Quando o corpo é perfeito, o saber é igualmente perfeito. Logo, alguém pode dizer que o conhecimento é obtido indiretamente através da educação física. A educação física é exigida para empreender o estudo sobre numerosas ciências modernas, seja na escola ou no estudo independente. Aquele que a isto equivale é o homem de corpo robusto; aquele que não equivale a isto é o homem de corpo frágil. A divisão entre o robusto e o frágil determina a área de responsabilidade que cada um é capaz de assumir. A educação física não melhora somente o conhecimento. Ela também harmoniza os sentimentos. O poder dos sentimentos é extremamente elevado. Os antigos esforçavam-se para discipliná-los com a razão. Consequentemente se perguntavam: "Está o mestre [i. e. a razão] sempre alerta?". E também diziam: "Deve disciplinar-se o coração com a razão". Mas a razão procede do coração, e o coração reside no corpo. Nós frequentemente observamos como os fracos são escravizados pelos seus sentimentos, como são incapazes de dominá-los. Aqueles cujos sentidos estão imperfeitos ou os membros estão defeituosos são geralmente escravizados por paixões excessivas, e a razão é incapaz de salvá-los. Logo, pode-se considerar uma lei invariável que, quando o corpo é perfeito e saudável, os sentimentos também o são. A educação física não harmoniza somente as emoções, mas também fortalece a vontade. A grande utilidade da educação física jaz justamente nisto. O principal objetivo da educação física é o heroísmo militar. Tais objetos do heroísmo militar, como a coragem, a intrepidez, a ousadia e a perseverança são todas matérias da vontade. Deixem-me explicar isto com um exemplo: lavar nossos pés com água gelada nos faz adquirir coragem e intrepidez, assim como a audácia. Em geral, quaisquer formas de exercício, quando seguidos continuamente, ajudar-nos-ão no treinamento da perseverança. Corridas de longa distância são particularmente boas em treinar a perseverança. "Minha força desenraizou montanhas, meu vigor dominou o mundo" [De um poema atribuído a Hsiang Yu] -- isto é coragem. "Se eu não decapitar o Lou Lan, juro que não retornarei" -- isto é intrepidez. Substituir a família pela nação -- isto é audácia. "[Yu] esteve fora de casa por oito anos, e embora ele tenha passado três vezes pela porta dela, não entrou nem uma vez" [referência a Mêncio] -- isto é perseverança. Todas estas coisas podem ser realizadas através da mera educação física diária. A vontade antecede a carreira de um homem. Aqueles cujos corpos são pequenos e frágeis são vacilantes em comportamento. Aqueles cuja pele é flácida são lentos e moles em vontade. Assim o corpo influência a mente. O propósito da educação física é o fortalecimento: músculos e ossos. Como resultado, o saber é incrementado; as paixões, harmonizadas, e a vontade, consolidada. Ossos e músculos pertencem ao corpo; conhecimento, sentimentos e vontade pertencem ao coração. Pode-se falar em perfeita harmonia somente quando coração e corpo vivem ambos em conforto. Consequentemente, educação física não é mais do que nutrir as nossas vidas e alegrar nossos corações. 

5. As razões para a aversão ao exercício 

O exercício é a parte mais importante da educação física. Atualmente, estudantes geralmente não o apreciam. Há quatro razões para isto: (1) eles não possuem autoconsciência. Se algo deve ser posto em prática, há de se tomar primeiramente o gosto por isto. Deve-se entender com precisão os porquês. Conhecer em detalhe os porquês é autoconsciência. As pessoas geralmente não reconhecem a interrelação entre elas mesmas e os exercícios -- ou podem conhecê-lo em termos gerais, mas não intimamente... (2) Eles são incapazes de mudar hábitos há muito estabelecidos. Nosso país sempre deu ênfase às realizações literárias. As pessoas coram ao vestir roupas curtas [O modo de se vestir dos guerreiros do rei Wen de Chao, segundo um capítulo do clássico taoista Chuang Tzu]. Há até um provérbio popular que diz "Um bom homem não se torna um soldado"... (3) Exercícios não foram difundidos vigorosamente... (4) Os estudantes sentem que os exercícios são vergonhosos. De acordo com a minha humilde observação, está a maior razão para o desgosto pelos exercícios. Roupas esvoaçantes, passos morosos, um olhar solene e calmo -- isto constitui uma conduta fina, respeitada pela sociedade. Por que deveria alguém repentinamente alongar um braço ou expor a perna, esticando-a e dobrando-a para baixo? Isto não é estranho? Por isto há esses que sabem muito bem que seus corpos necessitam de exercícios, e que, embora queiram verdadeiramente fazê-los, não o podem. Há esses que só conseguem exercitar-se em grupo, nunca sozinhos, e esses que só conseguem exercitar-se privadamente, nunca em público. Resumindo, tudo isto se deve à vergonha. Todas estas quatro são razões para a aversão ao exercício. A primeira e a quarta são subjetivas, de forma que a mudança depende de nós mesmos. A segunda e a terceira são objetivas; assim, a mudança depende de outros. Mas "O que o homem superior procura está dentro de si" [Analectos], o que torna a dependência de outros de menor importância. 

6. Os métodos de exercício devem ser poucos 

Tseng Wen-cheng lavava os pés antes de ir para a cama e andava mil passos depois das refeições, beneficiando-se profundamente deste método. Houve um homem de oitenta anos que ainda estava saudável, e que, ao ser perguntando como fazia para manter a saúde, replicou: "Eu não como refeições saudáveis, é só isto.". Atualmente, os métodos de exercícios são os mais diversos, mais do que eu posso contar. Mas apesar destes métodos poderem chegar a casa das centenas, "Um galho na floresta é suficiente para um pássaro se alojar, e se ele bebe de um rio, não bebe mais do que o seu estômago é capaz de aguentar" [De Chuang Tzu]. Nós temos apenas este corpo e somente estes sentidos, ossos, vísceras e veias. Mesmo que tenhamos várias centenas de métodos de exercício, todos eles possuem o intuito de aprimorar a circulação sanguínea. Então, se um método pode efetuar este processo, o resultado de uma centena de métodos só pode levar ao mesmo lugar. Portanto, os outros noventa e nove métodos podem ser dispensados. "Nossos olhos só podem ver uma coisa de cada vez; nossos ouvidos só podem escutar um som de cada vez." [De Hsun Tzu, um "realista" confuciano]. Empregar uma centena de diferentes métodos para treinar músculos e ossos serve apenas para danificá-los. 

7. Os pontos nos quais devemos tomar atenção durante o exercício 

Nós devemos perseverar em todas as coisas. O exercício não é uma exceção. Suponhamos dois homens que se exercitam. Um deles pratica e então para, o outro permanece ininterrupto. Com certeza haverá uma diferença nos resultados entre um e outro. Antes de tudo, perseverança no exercício cria interesse. Algo que está em descanso, em geral, não pode entrar por si mesmo em movimento; é preciso haver algo para movimentá-lo. Este algo só pode ser o interesse... O interesse surge do ininterrupto exercício diário. Exercitar-se duas vezes por dia -- ao acordar e antes de dormir, sem roupa - é a melhor maneira de desenvolvê-lo. Muitas roupas impendem o movimento. Se alguém o faz diariamente, a ideia de exercitar-se esta continuamente presente, nunca sendo interrompida. O exercício do hoje é a continuação do de ontem, e isto leva ao exercício de amanhã. Os períodos individuais de exercitação não devem ser longos; trinta minutos são o suficiente. Desta maneira, um certo interesse irá naturalmente florescer. Em segundo lugar, a perseverança no exercício pode gerar prazer. Exercitar-se por um longo período de tempo pode levar a excelentes resultados e levar a um sentimento de valor pessoal. Como resultado disto, seremos hábeis a estudar com alegria, e cada dia verá um progresso em nossa virtude. Nossos corações se encherão de uma felicidade sem limites, porque perseveramos e obtivemos um resultado. Prazer e interesse são distintos. O interesse é a origem do exercício; o prazer, sua consequência. O interesse surge da ação; o prazer, do resultado. Os dois são naturalmente diferentes. Persistência sem concentração mental dificilmente pode produzir resultados. Se observássemos as flores sobre um cavalo a galope, mesmo que o fizéssemos todos os dias, jamais as veríamos em perfeita completitude. Se o coração de uma pessoa apenas segue os cisnes pelos ares, ela não poderá competir com aqueles que estudaram o animal minuciosamente. Portanto, deveríamos concentrar todos os nossos esforços nos exercícios. Durante os mesmos, a mente deve permanecer focada na exercitação. Pensamentos confusos e inúteis devem ser colocados de lado... O comportamento geral do homem superior é cultivado e agradável, mas não podemos dizer isto dos exercícios. Estes devem ser selváticos, grosseiros. Ser apto, ao mesmo tempo, de saltar a cavalo e atirar; ir de batalha em batalha; estremecer montanhas com um grito e as cores do céus com um urro de fúria; ter a força para desenraizar montanhas, como Hsiang Yu, e a audácia para perfurar o alvo, como Yu Chi -- tudo isto é rude e selvagem e não tem nada a ver com delicadeza. A fim de progredir no exercício, o homem deve ser selvagem. Se o for, seus músculos e ossos serão fortes, assim como enorme vigor. O método para exercitar-se deve ser rude: assim o indivíduo poderá aplicar-se completamente no exercício, tomá-lo com seriedade, o que tornará a atividade mais fácil. Estas duas coisas são especialmente importantes para iniciantes. Há três coisas nas quais devemos por nossa atenção durante o exercício: (1) persistência, (2) concentração de todas as nossas forças, e (3) que este seja selvático e grosseiro. Há muitas outras coisas que querem atenção. Aqui eu meramente indiquei as mais importantes. 

 (Tradução: Clécio Pereira).

quinta-feira, 17 de março de 2016

Carl Schmitt - Sobre a Teoria Política de Mao Tsé-Tung:



«Na posição concreta de Mao reúnem-se diversos tipos de hostilidade, que se elevam até atingir a hostilidade absoluta. O racismo contra o explorador branco colonial; a luta de classes contra a burguesia capitalista; a hostilidade nacional contra o invasor japonês da mesma raça; a hostilidade há muito resultante das guerras civis encarniçadas e crescentes contra o próprio irmão de nacionalidade – tudo isto não se paralisava ou se relacionava reciprocamente, como seria de imaginar, mas, pelo contrário, confirmava-se e intensificava-se numa posição concreta. Estaline conseguiu, durante a II Guerra Mundial, aliar a guerrilha telúrica nacional à luta de classes do comunismo internacional. Mao precedeu-o em muitos anos. Também prosseguiu, na sua consciência teórica, a fórmula de Lenine da guerra como consequência da política» (Carl Schmitt, Theorie des Partisanen).

quarta-feira, 16 de março de 2016

Maoismo e Tradição


"O estudo ideológico deve estar baseado uns 99% nas obras do Grande Timoneiro Mao Tsé-Tung, pois nelas se superam, em qualidade, as opiniões de Marx, Engels, Lênin e Stálin". - Lin Piao

Derivações Taoístas da Teoria das Contradições

Afirma Mao Tsé-Tung: "A lei das contradições inerentes às coisas, quer dizer, a lei da unidade dos opostos, é a lei fundamental da natureza da sociedade e, por extensão, do pensamento".

Mao admite, junto com Marx, que a contradição é o motor universal de todo desenvolvimento. Porém o pensamento de Mao difere do marxista no momento em que, se colocando sob a tutela da tradição taoísta, delineia o caráter complementário dos contrários: "Sem o alto não há o baixo; sem o baixo não há o alto".

Segundo os ensinamentos taoístas, yin e yang são "princípios opostos e, ao mesmo tempo, complementares e inseparáveis, que possuem múltiplas valências: são o eterno masculino e o eterno feminino, o ativo e o passivo, o Céu (em sentido não-estrito) e a Terra, o luminoso e o escuro, o criativo e o receptivo, e assim eternamente". O yin e o yang são "duas categorias simbólicas dos opostos eternos, ainda que não sejam opostos em sentido estrito, senão que são complementares um com o outro, são necessários um ao outro, um não poderia existir sem o outro".

É o princípio da complementariedade, presente nos dois princípios da tradição extremo-oriental, o que encontramos no centro da teoria maoísta da contradição, a qual contempla os contrários em sua interdependência: "Assim ocorre com todos os opostos; em determinadas condições eles são opostos entre si, em outras estão reciprocamente conectados: se complementam, são permeáveis reciprocamente, são interdependentes; é a isso que chamamos identidade". Taoísticamente, "o ser e o não-ser se sucedem, adiante e atrás se antepõem, acima e abaixo se complementam, possível e impossível são diferenciações complementares", etc. No taoísmo, a ação sólida dos contrários dá lugar a modificações que "agora se completam, agora se trespassam uma a outra".

A interpretação das contradições dialéticas operada no maoísmo, se conecta a nosso parecer com a tradição extremo-oriental e propõe uma reivindicação dos ensinamentos taoístas revestindo-as de uma terminologia marxista-leninista.

Aspecto Solar da Nova Ordem Maoísta

Em "Para aprofundar na grande revolução cultural proletária", Mao Tsé-Tung escreve: "O desenvolvimento de todas as coisas depende do Sol e o fazer a evolução depende do pensamento de Mao".

Entendemos que na presente frase se expressa a noção tradicional que identifica o Chefe com o Sol. Assim é como o Imperador da China devia dar uma circunvalação ao "Templo da Luz" no sentido do deslocamento aparente do Sol para um observador que olhasse para o sul, detendo-se doze vezes, nas doze estações simbólicas que correspondem aos doze meses; "Desse modo se identificava com os "doze sóis", que são os doze "âditya" da tradição hindu, e inclusive os "doze frutos da Árvore da Vida" no simbolismo apocalíptico. Mao herdou dos imperadores essa imagem analógica, imagem que vem continuamente posta em evidência nos cantos da revolução chinesa:

"O Oriente é vermelho, o Sol se alça,
Sobre a terra da China surge Mao Tsé-Tung"

***

"O Partido Comunista é como o Sol;
Por onde vai lançando seus raios tudo se ilumina.
Para que os viventes cresçam necessitam do Sol;
Para fazer a revolução necessitamos de Mao".

***

"O pensamento de Mao Tsé-Tung é um Sol que nos indica o Oriente.
Para navegar em alto-mar necessitamos do Grande Timoneiro.
Respeitai e amai ao Presidente Mao, o grande educador, o grande guia.
Sol do coração, Sol vermelho do coração do povo revolucionário.
Viva o Presidente Mao!
Desde a montanha de ouro de Pequim seus raios iluminam o planeta.
Este Sol de ouro é o Presidente Mao".

A característica solar que insistentemente vem atribuída ao rol de Mao Tsé-Tung induz a pensar que o maoísmo é o parto contemporâneo da tradição imperial chinesa.

Voluntarismo

O maoísmo oferece uma reinterpretação das forças agentes na história. Mao reafirma a importância das idéias no desenvolvimento histórico: "As idéias justas são as próprias da vanguarda do povo, pelas quais eles penetram nas massas, são uma força material capaz de transformar a sociedade a o mundo".

Enquanto na análise marxista o rol atribuído às forças materiais é preponderante, o pensamento de Mao repropõe o homem como fator decisivo: "é suficiente que existam homens, para cumprir não importa que fim...a Revolução pode mudar tudo". Daí a formulação das quatro prioridades: do homem sobre o fato material, do trabalho político sobre as demais atividades, da doutrina sobre o trabalho político, das idéias vivas sobre as idéias dos literatos. Nos encontramos diante da imagem de um idealismo voluntarista, onde está excluído todo determinismo de caráter laico ou marxista. O maoísmo coloca o homem em seu justo lugar: sujeito da história, e não objeto de uma História supersticiosamente finalista.

Este idealismo voluntarista está na base da revolução cultural: "A revolução cultural tem por objetivo a revolucionarização do pensamento do homem". É o homem o fator decisivo, não a economia: não é suficiente insistir sobre essa, há que atuar sobre aquele. De igual forma, Codreanu propunha a "reforma do homem": "O país vai para a ruína por falta de homens, não por falta de programas. Essa é nossa convicção. Não devemos criar mais programas, senão mais homens, homens novos". Porém a analogia entre as doutrinas de Codreanu e Mao se verá mais evidente quando observemos a importância que reveste o camponês na nova ordem maoísta.

O campesinato

A importância do campesinato e a antítese entre campo e cidade são elementos centrais na concepção maoísta do Estado, elementos que na Europa constituíram os fundamentos das teorias "rurais" de Oswald Spengler, Walter Darré, Karl Dyrssen, Ferenc Szálasi, etc., nos quais o "Bauertum" fiel à terra era visto como a fonte da força mais sadia do sangue e do "Volk". A concepção campesina de Mao e Lin Piao conhece, em termos análogos, a contraposição entre o burguês, o "novo nômade", o "homem infecundo" - protagonista da "Zivilisation", fase terminal, crepuscular de cada ciclo - e a figura anti-democrática do campesino, "princípio e fonte inesgotável do sangue que cria a história mundial".

Na nova ordem maoísta se observam de novo as heréticas profecias que viram no bolchevismo o regime escolhido dos soldados-camponeses, com o qual a Alemanha, retornada a suas tradições socialistas e campesinas, pôde ter feito frente comum contra o "Ocidente" mercantilista.

Escreve Lin Piao: "A guerra de resistência contra o Japão foi essencialmente uma guerra revolucionária dos camponeses guiados por nosso Partido...Tomar posições entre os camponeses, criar as bases rurais e se servir das campanhas para posteriormente atacar as cidades: este foi o caminho que conduziu a Revolução Chinesa à vitória".

A essa teoria da criação das bases revolucionárias nas zonas rurais e sua aproximação progressiva às cidades atribui Lin Piao um valor universal: "Ganharemos todo o globo terrestre desse modo. Se a América do Norte e a Europa Ocidental podem ser consideradas como "a cidade", Ásia, África e América Latina representariam suas "zonas rurais". Depois da Segunda Guerra Mundial, o movimento revolucionário do proletariado nos países capitalistas da América do Norte e da Europa, por diversas razões, perdeu o rumo, enquanto que os movimentos revolucionários dos povos da Ásia, África e América Latina conheceram um vigoroso desenvolvimento. Em certo sentido, a revolução do mundo contemporâneo é um cerco das cidades pelos campos".

Ferenc Szálasi, o chefe da Cruz Flechada Hungarista, invocava insurreição anti-plutocrática das nações de economia agrária contra a potência industrial da Europa e da América do Norte.

Nessa "distância aristocrática e luta existencial contra a burguesia cidadã" reside a oposição entre a sociedade baseada na fidelidade à terra dos ancestrais e a civilização cosmopolita, entre o sentido da estirpe e a bastardização democrática. Os intelectuais burgueses contemplam com horror essa realidade: "É possível que essa adoração delirante pelo chefe seja um novo desenvolvimento do racismo, que até agora não atacou aos demais povos asiáticos". "Uma nova muralha se está construindo na China, mais alta e inexpugnável que a anterior, que consiste em separar dos chineses a todos os estrangeiros presentes no território, de isolá-los. Ninguém pode formalizar uma amizade com os chineses, sejam europeus, africanos ou asiáticos".



A Guerra

"A guerra tempera o povo e permite acelerar a marcha da história". Essa frase de Lin Piao, que pode resumir a ética espartana instaurada na China maoísta, tem escandalizado todas as consciências pacifistas, que perceberam em tal afirmação um eco da exaltação da guerra que foi expressada na afirmação provocadora de Marinetti: "higiene do mundo".

Os gazetilheiros da burguesia manifestaram seu termo diante da visão maoísta da guerra: "Entre os símbolos da Guarda Vermelha revolucionária, junto à foice e ao martelo, se acrescentou um elemento novo e marxistamente blasfemo: o fuzil. Os fuzis dizem mais de Mao do que qualquer de seus exegetas. Karl Marx queria a paz, Mao Tsé-Tung quer a guerra; Karl Marx predicava a paz como fim da luta de classes, Mao Tsé-Tung proclama a eternidade da guerra popular..."

O heroísmo revolucionário ocupa um capítulo especial do "Livro Vermelho": nele se exaltam as virtudes guerreiras, a coragem, o sacrifício e o espírito de luta: "Um exército assim sempre segue adiante, decidido a vencer e a não se submeter ao inimigo. Ainda nas condições mais difíceis continuará lutando até o último homem". "Desenvolveremos continuamente nosso estilo de luta - coragem na batalha, nenhum temor perante o inimigo, nenhum temor perante a fadiga e uma luta contínua, um empenho em lutar sucessivamente em um intervalo de tempo breve e sem descanso".

"Milhares e milhares de mártires sacrificaram heroicamente suas vidas em interesse do povo. Alçamos, avançamos sobre a estrada enrubrecida por seu sangue!". O maoísmo tributa um reconhecimento precioso aos valores heróicos e contrapõe ao pacifismo uma concepção guerreira da vida, com a espiritualidade, os valores e a ética que são característicos de tal concepção. Essa concepção não deixa espaço para o individualismo, senão que predica aquela impessoalidade ativa que, em um clima livr de sugestões subjetivas, dá lugar ao sacrifício heróico, que é por definição desindividualizado, anônimo.

Frente à sociedade do mercador que exalta somente as "virtudes cívicas", que "identifica os valores materiais com os valores em si e cujo ideal de vida é a vida segura e confortável do trabalho, a produção, o esporte, o cinema e a sensualidade", o maoísmo propõe como alternativa um tipo de sociedade cujo primeiro posto está ocupado pelo guerreiro e pelo herói.

Porém não há que pensar que o marxismo, propondo uma moral militar de nível superior à moral burguesa, não tome precauções diante do militarismo: "O partido deve guiar o fuzil, o fuzil nunca deve guir o partido". O elemento militar e, em geral, guerreiro, se situa na esfera dos meios, não da dos fins: na ordem maoísta se deve subordinar ao princípio político, como no Estado platônico o elemento volitivo e a casta guerreira se subordinam ao elemento intelectivo e à elite dos sábios-iniciados.

A Arte

"Nossa literatura e nossa arte estão a serviço da grande massa do povo de trabalhadores, camponeses e soldados; é criada pelos trabalhadores, camponeses e soldados e está a serviço dos trabalhadores, camponeses e soldados".

Quatro anos mais tarde o stalinismo formula em termos análogos sua teoria da arte: "Convém à literatura auxiliar adequadamente o Estado a elevar a juventude, responder a seus problemas, educar às novas gerações para que sejam valorosas, a crer em sua causa, a se mostrarem intrépidas superando os obstáculos e barreiras..."

Essa verdade relativa da arte é similar na concepção política de Platão: "O totalitarismo platônico (...) nasce da consciência de que a velha classe dirigente estava morte e a nova não havia todavia nascido. Visto desde essa perspectiva, o totalitarismo platônico apresenta coincidências históricas relevantes com o totalitarismo moderno, que quer substituir às velhas elites políticas deslocadas pelas revoluções liberais".

Contra as mistificantes teorias burguesas sobre a arte, Mao afirma que "não existe, em realidade, uma arte pela arte, uma arte à margem das classes, uma arte que se desenvolva fora da política ou independentemente dela"; a arte na China deve ser uma arte popular. Platonicamente, Mao divulga o que ele chama de uma arte "liberada", ao tempo que resgata modelos de poesia tradicional. Mao Tsé-Tung, poeta ele mesmo como os velhos imperadores Han, Leang, Tang e Wei, conhecia o exercício das formas tradicionais da poesia, às quais se atém, dotanod-as de elegância, força e aristocracia.

A Medicina

No campo da medicina, o maoísmo apresenta uma alternativa tradicional à pseudo-ciência que veio a predominar no mundo moderno. A acupuntura foi praticada na China desde tempos antiquíssimos, e o Ocidente capitalista se vê obrigado a admitir que contradiz a idéia de "progresso": "Depois da guerra do ópio, em 1849, entre a decadência geral do país e a servidão cada vez mais acentuada dos imperadores Ching aos agressores imperialistas, a acupuntura veio a ocupar uma segunda ordem, e a situação veio a piorar ainda mais sob o governo reacionário do Kuomitang, que exerceu uma verdadeira discriminação contra essa terapia tradicional".

A nova ordem de Mao Tsé-Tung significou, no campo científico, uma redescoberta da medicina tradicional. "Desde a fundação da nova China, o Partido e o Estado tomaram várias medidas para desenvolver as terapias tradicionais, assim se fundaram vários centros de investigação em Pequim e nas grandes cidades, assim como se institucionalizaram os departamentos de acupuntura na quase totalidade dos hospitais". O pressuposto básico da acupuntura, como o de toda a medicina tradicional chinesa, é a doutrina tradicional de que a enfermidade deriva da ruptura do equilíbrio que mantém em tensão ideal o yang (masculino, ativo) e o yin (feminino, passivo). A medicina chinesa quer chegar ao nível das causas, ao contrário da medicina profana, que se aplica ao nível dos efeitos e que se pode descrever, em suma, como sintomática.

"Porém existe outro ponto de vista que é necessário tomar em consideração: a medicina chinesa, como todas as ciências tradicionais, tem em si os elementos simbólicos que lhe permitem ser exercitada no quadro da filosofia taoísta como verdadeiramente cognoscitivos, de servir como base adequada para a realização pessoal. Assim como perante a enfermidade o médico chinês tentará reestabeleer o equilíbrio relativo para a saúde, assim lhe servirá ao paciente como chave simbólica para sua realização como Tchenn-jen, como Homem verdadeiro, que é o ponto de onde parte todo o processo de conhecimento que conduz aos estados superiores do ser e que culmina na identidade com o Tao, quer dizer, na condição de Cheun-jen ou Homem Transcendente.

À hora de construir uma alternativa para a pseudo-ciência do mundo moderno, a resposta da ciência tradicional auspiciada pelo maoísmo põe as condições favoráveis para a realização do aspecto iniciático inscrito nas artes e nas profissões. No caso da medicina, a acupuntura reivindicada pela revolução maoísta, põe em seu lugar as bases do ditado tradicional: "Cura te ipsum".

Isaque Santos: Mao Tsé-Tung - Realpolitik e Revolução



Via Legio Victrix
«Na posição concreta de Mao reúnem-se diversos tipos de hostilidade, que se elevam até atingir a hostilidade absoluta. O racismo contra o explorador branco colonial; a luta de classes contra a burguesia capitalista; a hostilidade nacional contra o invasor japonês da mesma raça; a hostilidade há muito resultante das guerras civis encarniçadas e crescentes contra o próprio irmão de nacionalidade – tudo isto não se paralisava ou se relacionava reciprocamente, como seria de imaginar, mas, pelo contrário, confirmava-se e intensificava-se numa posição concreta. Estaline conseguiu, durante a II Guerra Mundial, aliar a guerrilha telúrica nacional à luta de classes do comunismo internacional. Mao precedeu-o em muitos anos. Também prosseguiu, na sua consciência teórica, a fórmula de Lenine da guerra como consequência da política» - Carl Schmitt, Theorie des Partisanen.

Mao Tse-tung foi uma figura singular dentro do movimento comunista. Tendo frequentado, em sua juventude, os círculos tradicionalistas da Escola de Estudos de Wang Fu Qi, em 1917, publicou um enigmático artigo intitulado A Study of Physical Education – texto repleto de citações de Confúcio, onde se encontram considerações sobre a importância dos exercícios e do aprimoramento físico na formação guerreiro-militar e na saúde da nação.  

Seus escritos políticos e, em especial, sua Teoria das Contradições, refletem aquilo que se poderia denominar de realpolitik marxista: existem contradições inerentes não só aos fatos políticos e sociais, mas também a toda estruturação ontológica da realidade. Em seu Sobre a Contradição, Mao afirma:

«A universalidade ou caráter absoluto da contradição tem um duplo significado: primeiro, que as contradições existem no processo de desenvolvimento de todos os fenômenos; segundo, que no processo de desenvolvimento de cada fenômeno, o movimento contraditório existe desde o princípio até ao fim».

No entanto, partindo do pressuposto básico a cerca da universalidade e da imanência da contradição, não se pode simplesmente concluir que toda contradição seja inerentemente idêntica e equivalente em seus respectivos planos; assim, Mao afirma: 

«No problema da luta dos contrários está incluída a questão de saber o que é o antagonismo. A nossa resposta é que o antagonismo constitui uma das formas, e não a única forma, da luta dos contrários.Na história da humanidade o antagonismo entre classes existe como expressão particular da luta dos contrários. (...) Certas contradições revestem o caráter dum antagonismo aberto, outras não. Segundo o desenvolvimento concreto dos fenômenos, certas contradições, primitivamente não antagônicas, desenvolvem-se em contradições antagônicas, enquanto outras, primitivamente antagônicas, desenvolvem-se em contradições não antagônicas».

Ora, uma vez assumido que nem toda contradição é política e ontologicamente antagônica e sendo o antagonismo apenas uma das modalidades da contradição absoluta, Mao desloca a dialética das classes sociais e a insere nas categorias analíticas das Contradições Antagônicas e da Contradição Não-Antagônicas e, assim, formula um modo específico de interpretar o marxismo em termos mais amplos, formal e realisticamente estruturados a partir de circunstâncias históricas e políticas particulares e que admitem antagonismos, inimizades e hostilidades mais amplas – ora entre o campesinato e o latifúndio; ora entre a nação e o invasor nipônico; ora entre o indígena sino-mongol e o colono branco-europeu; ora entre a civilização chinesa e a civilização ocidental. A inimizade política, para nos expressarmos de modo schmittiano, cinge-se, no pensamento político de Mao Tse-tung, a partir de diversas tonalidades que podem se manifestar em contradições de classe, em lutas raciais, em antagonismos intra e extra nacionais e em embates civilizacionais e geopolíticos na arena das relações internacionais. E assim como na perspectiva de Carl Schmitt – onde o hostis é definido nos termos formais de uma inimizade pública –, a categoria maoísta das Contradições Antagônicas não pressupõe, em absoluto, quais serão as substâncias políticas constitutivas destas mesmas contradições – antes, tais substâncias devem ser delineadas em termos realistas, na situação concreta da inimizade: a hostilidade pública contra o imperialismo japonês, para mencionarmos um exemplo histórico, aglutinou os comunistas chineses e os nacionalistas do Kuomintang – a despeito de suas ideologias de base e a despeito da arrastada guerra civil travada por e entre ambos – em uma batalha comum, em um núcleo politicamente condicionado de amizade pública contra um inimigo igualmente público.

Foi a partir desta compreensão básica, ainda, que a Revolução Chinesa, com Mao, promoveu e introduziu o modo de produção conhecido como Fanshen – o contar com as próprias forças: tratou-se de um modelo produtivo que, recapitulando as antigas tradições comunitárias chinesas e fundado sobre o princípio da reforma agrária e da cooperação nacional orgânico-produtiva, implicou na destruição do latifúndio, na redistribuição de terras e na formação de comunidades produtivas autônomas de pequenos e médios camponeses (que passaram a ocupar 90% das terras aptas ao cultivo) com o objetivo de garantir a subsistência destes grupos e de aumentar as receitas produtivas do Estado: neste sentido, admitia-se que agremiações econômico-produtivas diversas, das mais ricas as mais pobres, a despeito das contradições de classe inerentes entre elas, cooperassem em prol do bem comum da nação: eis aí o cerne daquilo que se poderia chamar de cooperativismo maoísta – cooptar diferentes classes; alocá-las em um mesmo processo revolucionário geral; desaburguesar o pequeno proprietário e retirar a mera condição de proletário do camponês pobre, criando umagestalt dialeticamente perene, no genuíno espírito do ethos confuciano, mediada e plasmada politicamente em torno do Estado socialista e da propriedade socialista dos meios de produção.

Cabe ainda ressaltar que Mao, além de marcadamente anticapitalista e antiburguês, foi também uma figura antiliberal, comprometida com o combate ao liberalismo em suas formas espirituais mais sutis. Em seu texto Contra o Liberalismo, Mao enumera cerca de onze comportamentos e atitudes típicas do liberalismo, dentre as quais estão o individualismo, o egoísmo pequeno-burguês, a falta de disciplina, a insubmissão hierárquica, além da tolerância burguesa e do caráter excessivamente passivo do liberalismo – contra o qual Mao contrapõe a atividade revolucionária.

«O liberalismo rejeita a luta ideológica e preconiza uma harmonia sem princípios, o que dá lugar a um estilo de vida decadente, filisteu, e provoca a degenerescência política de certas entidades e indivíduos (...). O liberalismo é a passividade. Objetivamente, serve o inimigo (...)». 

Assim considerado, o pensamento de Mao Tse-tung – o maoísmo – pode bem ser identificado como a menos moderna das teorias marxistas. Se é possível estabelecer graus de distanciamento e de aproximação em relação aos paradigmas da modernidade no que diz respeito às três teorias políticas modernas (liberalismo, socialismo e fascismo), também é possível fazer semelhante consideração sobre as diversas subdivisões internas a tais teorias. É deste modo que se pode considerar o liberalismo clássico (Terceiro Estado) como sendo menos moderno que o neoliberalismo ou que o pós-liberalismo (Quinto Estado). Ou o nacionalismo místico-ortodoxo da Guarda de Ferro romena como menos moderno que o populismo mussoliniano – que chegou a pôr organizações esotéricas na clandestinidade. Do mesmo modo, o maoísmo, pelo seu manuseio realista das contradições como atualização da psicologia confuciana e, acima de tudo, pelo seu caráter telúrico, camponês e guerreiro – a guerrilha telúrica como elite vermelha concreta, na expressão de Carl Schmitt – pode ser considerado menos moderno em relação ao trotskismo ou até mesmo ao leninismo e ao stalinismo. 

É certo que a prática política de Mao contou com erros e pode ser criticada desde uma perspectiva política identitária, por exemplo, quando reprimiu as formas tradicionais de religiosidade chinesa durante a Revolução Cultural. No entanto, também houveram aspectos notadamente positivos em sua prática. Mao, com sua linha de massas, conseguiu, junto ao Partido Comunista, erradicar o vício nas drogas em poucos anos, a partir de uma política de execução de grandes traficantes e da repressão ao consumo, algo muito distinto das propostas legalizacionistas e filo-oligárquicas das esquerdas liberal-libertárias ocidentais. 

Mao também preservou – talvez inconscientemente – certos aspectos do simbolismo solar e imperial chinês na estrutura estético-doutrinária da Revolução Cultural. Em seu artigo Para aprofundar a grande revolução cultural proletária, Mao sustenta, recapitulando a noção sino-tradicional da simetria entre o Imperador e o Sol, que «O desenvolvimento de todas as coisas depende do Sol e o fazer a revolução depende do pensamento de Mao». Além do mais, sua Teoria das Contradições, além do que já assinalamos, pode bem ser considerada, com as devidas ressalvas, como uma versão moderna e uma atualização da dialética dos contrários Taoísta, assim sua noção de heroísmo revolucionário, exposta em seu Livro Vermelho, pode ser considerada como uma atualização marxista do ethos guerreiro tradicional. 

Em suma, o maoísmo configura-se de um modo de encarar o político repleto de idiossincrasias locais e de formas narrativas e compreensivas embebidas em um complexo psico-cultural de fundo e de natureza tradicional. A China contemporânea pós-maoísta, mesmo que internamente dominada por elites liberais, assume hoje um papel importante na correlação de forças e nas contradições da ordem internacional – ao lado de países como a Rússia e o Irã. Pode-se dizer seu lugar na história está hoje em aberto: ela pode tanto sucumbir a uma forma aberta de liberalismo e de capitalismo predatório e parasitário, como pode, a sua maneira, alcançar suas pretensões socialistas. Seja como for, poucos discordarão que o futuro da política internacional se não depende, ao menos passa, para o bem ou para o mal, do Império do Meio. E se tivermos sorte, o que hoje se chama de República Popular da China alcançará, junto às demais nações antiimperialistas, os meios para levar o mundo a uma verdadeira Lex Pluriversalis, a uma configuração global multipolar, tal como décadas atrás enunciara Mao poeticamente:

«Se o céu fosse o meu poiso, puxaria  da espada  E cortar-te-ia em três pedaços:  Ofereceria um à Europa,  Outro à América,  Guardando, porém, um para a China,  E a Paz dominaria o Mundo». 
Bibliografia:

Schmitt, Carl. Teoria da Guerrilha: observações para esclarecimento político. Lisboa: Arcádia, 1975.
Pomar, W. O Enigma Chinês: capitalismo ou socialismo. São Paulo: Editora Alfa-Omega, 1987.
Tse-tung, Mao. Política. FERNANDES, F. (org.). Rio de Janeiro: Ática, 1982.
___________. Selected works of Mao Tse-tung: Vol. I e II. Oxford: Pergamon Press, 1965.
Quaderni del Veltro, 1973. Maoismo e Tradizione. Disponível em (em português): <http://legio-victrix.blogspot.com.br/2012/08/maoismo-e-tradicao.html> 

Mao Tsé-Tung: Contra o Liberalismo



Nós somos pela luta ideológica activa porque é uma arma para se alcançar a unidade interna do Partido e das demais organizações revolucionárias, em benefício do nosso combate. Cada membro do Partido Comunista, todo o revolucionário, deve empunhar essa arma.
O liberalismo, porém, rejeita a luta ideológica e preconiza uma harmonia sem princípios, o que dá lugar a um estilo decadente, filisteu, e provoca a degenerescência política de certas entidades e indivíduos, no Partido e nas outras organizações revolucionárias.
O liberalismo manifesta-se sob diversas formas: Constatamos que alguém está a agir mal mas, como se trata dum velho conhecido, dum conterrâneo, dum condiscípulo, dum amigo íntimo, duma pessoa querida, dum antigo colega ou subordinado, não nos empenhamos no debate de princípios e deixamos as coisas correr, preocupados com manter a paz e a boa amizade. Ou então, para mantermos a boa harmonia, não fazemos mais do que críticas ligeiras, em vez de resolver a fundo os problemas.
O resultado é prejudicar-se tanto a colectividade como o indivíduo. Essa é uma primeira forma de liberalismo.
Em privado entregamo-nos a críticas irresponsáveis, em vez de fazermos activamente sugestões à organização. Nada dizemos de frente às pessoas, mas falamos muito pelas costas; calamo-nos nas reuniões, e falamos a torto e a direito fora delas. Desprezamos os princípios de vida colectiva e deixamo-nos levar pelas inclinações pessoais. É uma segunda forma de liberalismo.
Desinteressamo-nos completamente por tudo que não nos afecta pessoalmente; mesmo quando temos plena consciência de que algo não vai bem, falamos disso o menos possível; deixamo-nos ficar sabiamente numa posição coberta e temos como única preocupação não ser apanhados em falta. É uma terceira forma de liberalismo.
Não obedecemos a ordens, colocamos as nossas opiniões pessoais acima de tudo. Não esperamos senão atenções por parte da organização e repelimos a disciplina desta. Eis uma quarta forma de liberalismo.
Em vez de refutar e combater as opiniões erradas, no interesse da união, do progresso e da boa realização do trabalho, entregamo-nos a ataques pessoais, buscamos questões, desafogamos o nosso ressentimento e procuramos vingar-nos. Eis uma quinta forma de liberalismo.
Escutamos opiniões erradas sem elevarmos uma objecção e deixamos até passar, sem informar sobre elas,  expressões  contra-revolucionárias,  ouvindo-as passivamente, como se de nada se tratasse. É uma sexta forma de liberalismo.
Quando nos encontramos entre as massas, não fazemos propaganda nem agitação, não usamos da palavra, não investigamos, não fazemos perguntas, não tomamos a peito a sorte do povo e ficamos indiferentes, esquecendo-nos de que somos comunistas e comportando-nos como um cidadão qualquer.  É uma sétima forma de liberalismo.
Vemos que alguém comete actos prejudiciais aos interesses das massas e não nos indignamos, não o aconselhamos nem obstamos à sua acção, não tentamos esclarecê-lo sobre o que faz e deixamo-lo seguir. Essa é uma oitava forma de liberalismo.
Não trabalhamos seriamente, mas apenas para cumprir formalidades, sem plano e sem orientação determinada, vegetamos — "enquanto for sacristão, contentar-me-ei com tocar os sinos". Essa é uma nona forma de liberalismo.
Julgamos ter prestado grandes serviços à revolução e damo-nos ares de veteranos; somos incapazes de fazer grandes coisas mas desdenhamos as tarefas pequenas; relaxamo-nos no trabalho e no estudo. Eis uma décima forma de liberalismo.
Cometemos erros, damo-nos conta deles mas não queremos corrigi-los, dando assim uma prova de liberalismo com relação a nós próprios. Eis a décima primeira forma de liberalismo.
Poderiam citar-se outros exemplos mais, mas os onze acima indicados são os principais.
Todos eles constituem manifestações do liberalismo.
O liberalismo é extremamente prejudicial nas colectividades revolucionárias. É um corrosivo que mina a unidade, afrouxa a coesão, engendra a passividade e provoca dissensões. Priva as fileiras revolucionárias duma organização sólida e duma disciplina rigorosa, impede a aplicação integral da linha política e separa as organizações do Partido das massas populares colocadas sob a direcção deste. É uma tendência extremamente perniciosa.
A origem do liberalismo está no egoísmo da pequena burguesia, que põe em primeiro lugar os seus interesses pessoais, relegando para segundo plano os interesses da revolução. É dela que nasce o liberalismo ideológico, político e de organização.
Os liberais consideram os princípios do Marxismo como dogmas abstractos. Aprovam o Marxismo mas não estão dispostos a pô-lo em prática, ou a pô-lo integralmente em prática; não estão dispostos a substituir o liberalismo pelo Marxismo. Armam-se tanto dum como doutro: falam de Marxismo mas praticam liberalismo; aplicam o primeiro aos outros e o segundo a si próprios. Levam os dois na bagagem e encontram uma aplicação para cada um. É assim que pensam certos indivíduos.
O liberalismo é uma manifestação do oportunismo e está em conflito radical com o Marxismo. O liberalismo é a passividade. Objectivamente, serve o inimigo. É por essa razão que o inimigo se regozija quando o conservamos nas nossas fileiras. Tal é a natureza do liberalismo. Não deve pois haver lugar para ele nas fileiras da revolução.
Penetrados do espírito activo do Marxismo, devemos vencer a passividade do liberalismo.    Um comunista deve ser aberto, fiel e activo, colocar os interesses da revolução acima da sua própria vida e subordinar os interesses pessoais aos interesses da revolução. Em todos os momentos, seja onde for que se encontre, ele deve ater-se aos princípios justos e travar uma luta sem tréguas contra todas as ideias e acções erradas, de modo a consolidar a vida colectiva do Partido e reforçar os laços existentes entre este e as massas; um comunista deve preocupar-se mais com o Partido e as massas do que com os seus interesses pessoais, e atender mais aos outros do que a si próprio. Só quem actua assim pode ser considerado comunista.
Todos os comunistas fiéis, abertos, activos e honestos, devem unir-se para lutar contra as tendências liberais de certos indivíduos entre nós, e conseguir chamá-los ao bom caminho. Essa é uma das nossas tarefas na frente ideológica.